por MarcosRobertomoreira
Acordou no horário de sempre.
Desligou o despertador e ficou um tempinho na cama antes de se levantar.
Foi ao banheiro, ainda de olhos fechados, tateando no escuro. Acendeu a luz, jogou água fria no rosto e se olhou no espelho. Sentiu que algo se movia atrás dele. Olhou para trás. Nada.
Dormia toda noite nu. Não precisando se despir, foi direto para o chuveiro. O jato de água morna atingiu seu cabelo crespo e escorreu por todo seu corpo. Sentiu vontade de nunca mais sair dali.
Passou sabonete na esponja e a esponja pelo corpo. Pescoço, axilas, braços, peito, barriga. Envergou-se para alcançar o máximo possível das costas. Esfregou para baixo dos ombros, por atrás das costelas. Quando chegou ao cóccix, sentiu algo estranho. Projetava-se por cima das nádegas e ia seguindo como um cipó liso.
Era um rabo.
Puxou-o para frente até ver sua ponta. Notou que conseguia movê-lo, assim como fazia com seus braços e pernas. Desesperou-se.
Desligou o chuveiro e mal tirando o sabão do corpo com a toalha, foi para frente do espelho. Olhava-se de lado. Aquele rabo imenso movendo-se para lá e para cá.
Não tinha muito tempo. Vestiu a calça ajeitando o rabo para baixo, na extensão da perna direita. Vestiu camisa, colocou gravata, calçou sapato, apanhou as chaves e desceu de elevador até o estacionamento. Entrou no carro, sentou meio de lado para não amassar o rabo e dirigiu-se ao trabalho.
O trânsito, caótico como sempre. O sol a pique e o carro sem ar condicionado. Abriu as janelas em busca de uma brisa refrescante. Súbito, uma profusão de cheiros invadiu seu aparelho olfativo. Cigarros, perfumes, urina, fumaça dos escapamentos mal calibrados, o cheiro do pastel vindo da feira. Mas a feira mais próxima, estava a quilômetros dali! Como podia sentir o cheiro àquela distância? Não sabia. Assim como não sabia por que diabos acordou com rabo.
Estacionou o carro. Subiu até escritório. Preferiu as escadas, as quais subiu correndo, sem muito esforço. Chegando à sala, colocou a língua para dentro da boca e ajeitando a camisa no corpo, andou até a cozinha. Encheu um copo descartável com café e começou a solvê-lo. Notou que as pessoas o olhavam esquisito enquanto bebia seu café. E só então se deu conta que não estava inclinando a cabeça e o copo para cima, afim de que a bebida lhe escorregasse pela garganta. Não. Ele estava com a cara metida no copo, articulando freneticamente a língua para levar o café à boca. Recompôs-se. Virou o copo de uma vez na boca, jogou-o no lixo e dirigiu-se à sua mesa.
Percebeu que seu rabo ficava tenso quando passava ao lado de alguém que não gostava e se agitava quando este alguém era uma pessoa agradável.
Ligou seu computador e olhou para tela. Estranhou. As imagens surgiam em tons de amarelo, azul e cinza, mesmo o papel de parede em sua área de trabalho, que ele poderia jurar ser um por do sol avermelhado. Fechou os olhos e procurou se concentrar. Mas era difícil já que naquele dia, a repartição, que geralmente era tão silenciosa, estava extremamente barulhenta, com sons de unhas sendo ruídas, cabelos sendo coçados, corações batendo, respirações ofegantes e as buzinas e motores dos carros, nove andares abaixo, fazendo vibrar os vidros das janelas.
“Meu Deus”, pensou, “o que está acontecendo comigo?”
A reposta era obvia. Principalmente depois de notar que surgia uma pelugem baixa em seus braços. E quando um mosquito começou a rondar-lhe a cabeça, e ele, num rápido reflexo, abocanhou o inseto, viu que não podia mais ficar ali.
Correu para o banheiro. Afrouxo a gravata, tirou meia e sapato, e já se coçava com as garras que lhe cresceram nos pés. E ao molhar o rosto, sacudia a cabeça para se secar, e ao usar o mictório, levantava a perna para urinar. Foi quando se pegou bebendo a água do vaso sanitário que decidiu sair do banheiro.
Atravessou a porta. Os companheiros de serviço o olhavam assustados. Viu que a culpa era sua, afinal, não deveria ter latido para eles!
O chefe sai de sua sala, esbravejando, gritando como se tivesse um alto falante na garganta.
– Que brincadeira de mal gosto, senhor Rodney! Pensa que isso aqui é um canil?
Não. Era um escritório. O lugar de onde tirava o dinheiro para pagar suas contas, comprar seu alimento, suas roupas. O lugar onde sacrificava oito horas de seu dia, seis dias por semana, para trazer conforto ao seu lar. Ainda sim, aquele lugar lhe parecia mesmo um canil. As grades e paredes a lhe prender, as pessoas ao redor, como cães ariscos prontos para lhe atacar. E seu patrão, como um carrasco, um adestrador cruel, lhe ensinando aos gritos como deveria sentar-se e fingir-se de morto enquanto trabalhava em frente ao computador.
Mas ele não aceitaria mais aquele abuso. Não se portaria mais como um cãozinho submisso e domesticado. Não. Agora ele mostrava os dentes, rosnava e se preparava para atacar. Quando deu por si, estava com as presas cravadas no pescoço do chefe. Largou-o. Sentiu satisfação ao ver o sangue escorrendo pelos buracos que seus caninos abriram. E se deliciou ao perceber que o homem não fedia mais o orgulho e a soberba – agora ele exalava o doce aroma do terror que ele tanto gostava de causar aos outros. Rodney enfim, marcara o território e se impunha como novo líder da matilha.
Mas os outros animais presentes, ignoravam aquela simples lei natural. E lhe arremessavam latas de lixo, e lhe batiam com réguas e pranchetas. Mas ninguém era macho suficiente para enfrentá-lo com unhas e dentes. E ele viu que não valia a pena lutar pelo domínio daquela matilha. Todos fediam a traição e falsidade, exalavam o medo de lutar por seus sonhos, de mostrar seu verdadeiro eu.
Saiu dali, deixando para trás paredes, grades e as convenções que lhe aprisionaram por toda a vida. E quando alcançou a rua, nu, os pelos acariciados pelo vento, as patas sucedendo-se umas as outras num sincronismo perfeito, ele entendeu, eu sua mente irracional, o verdadeiro significado da palavra liberdade.
29-10-10